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R.I.P. BOECHAT


Conheci Ricardo Boechat, na redação de O Globo, no fim dos anos 1980. Ele foi contratado para fazer a famosa coluna do Swan, vindo do JB. Mas, logo, passou a usar o seu próprio nome, tal o sucesso rapidamente obtido. Pouco depois, virou comentarista matutino do 'Bom dia Brasil', na Rede Globo, onde aparecia para fazer um comentário, e, não raras vezes, pregava peças em seus companheiros ao vivo (certa vez, levou um balde com água para o estúdio, por conta de uma matéria sobre a Lavagem do Bonfim, e benzeu a todos!). Na redação de O Globo, em vez de aquário, ele ficava no meio de todos, para, assim, ver tudo o que se passava a sua volta (e ser visto) e, quando era o caso, mandava uns gritos de onde estava.

   No meu caso, toda vez que chegava uma mocinha pálida ou um cara tatuado, ele logo gritava: ‘Tom Leão? Rio Fanzine? Sou eu!’. E, ia até a nossa mesa (eu e Carlos Albuquerque, que fazíamos a coluna, de cultura pop) e dizia: ‘Eu preferiria estar fazendo isso que vocês fazem, do que ficar recebendo assessoria de imprensa e políticos’. Aliás, quando foi chamado para trabalhar na equipe do Moreira Franco, ficou apenas seis meses. Me disse que não tinha estômago para conviver naquele meio podre. E voltou célere para o jornal.
   Por um breve tempo, fomos também vizinhos no Leblon, na virada dos 80s para os 90s. Ele morava na última casa na quadra da praia -- certa vez, me disse que optou por uma casa para poder caber a filharada toda --, na José Linhares (hoje, um prédio de luxo), e nos encontrávamos pela manhã, tomando um suco, no Bibi Sucos original (na esquina da Ataulfo de Paiva), vitamina de banana com aveia (eu) e suco tutti frutti (ele). Dali, algumas vezes, chegamos a pegar o ônibus que ia via túnel (os chamados ‘brizolões’), que tinham acabado de ser criados), e passavam perto do jornal. Ou ele pegava um taxi (e nunca me deixava pagar).

   Sempre foi um cara simples, bacana, sacana, brincalhão, botava apelidos em todos. Era mais legal (e pilhado) ainda ao vivo, do que na TV ou no rádio. Aliás, se revelou na TV. com seu jeito histriônico e quebrando regras (nunca foi o jornalista solene). E, se consagrou (e se reinventou) no rádio, dando uma personalidade supercarioca e descontraída à paulistana Band News FM, que, agora, sem ele, dificilmente a emissora terá de novo. E, é bom nem tentar. Também brilhava na bancada do jornal nacional da Band, fazendo aqueles comentários que nenhum outro âncora na tv brasileira faz, ao vivo, de improviso -- às vezes, até deixando sem graça a apresentadora ao lado.

   Ricardinho, o careca, o bon vivant, super carioca (mesmo nascido argentino), sedutor (conheci várias mulheres que foram loucas por ele, algumas até me passavam recadinhos pra ele -- na época em que estive na TV e no jornal, simultaneamente --, o camarada de Niterói, que tentei encontrar várias vezes, recentemente, quando ele vinha a Band Rio, fazer o jornal da manhã ou as ações de rua. Em SP, começou nova vida com sua doce Veruska e suas duas meninas, Catarina e Valentina (pai dedicado, cuidava de levá-las a escola, e a compromissos médicos; certa feita, levou uma no lugar da outra ao dentista!). As meninas os fizeram encarar um show da Katy Perry, em Nova York, do qual ele disse não ter entendido nada.

   Aos 66 anos, era chamado, carinhosamente, de ‘velho’, pelos colegas de trabalho. Mas, tinha muito mais folego e mais humor e sacadas do que qualquer moleque ou galera mais nova. Estava em vários lugares, incansável.

   O cara que, certa vez, me respondeu a um e-mail, em pleno Jornal da Band, ao vivo (não estava nem no intervalo!), de algo que perguntei porquê lembrei naquela hora, ao vê-lo, e não era urgente. Que dava o seu próprio número de celular no ar, na rádio, e respondia a todos.


   Falar do Boechat no tempo passado é muito triste. Ele foi o meu maior ídolo do jornalismo (sequer era formado na matéria, aprendeu na vivência!) desde o Paulo Francis, que também dizia e enxergava coisas de nossos país que, muitas vezes, ficamos cegos para ver (e entender). Ficará um buraco imenso.

   Não vou conseguir ouvir a Band News FM, pela manhã, durante um bom tempo. Ele nos acordava para cima, parecido com o personagem de Robin Williams, naquele filme, ‘Bom dia, Vietnã’, com muita vida e energia. A coluna do Simão, sem ele, não fará o menor sentido. Boechat não tem substituto! O molde quebrou e não vai ter outro igual.

    Um grande abraço nos filhos, na esposa e, sobretudo, em Doña Mercedez, sua mãe, de 90 anos, ainda ativa e humorada como ele, e a quem BOE (sua identificação no velho sistema do Globo) amava muito e sempre citava.

R.I.P.




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